Janeiro 25, 2011

Meus

Em 2002 eu ganhei um livrinho, ele tem cerca de 400 páginas, e seu título é quase uma declaração de amor, acredito que era uma declaração de amor na época. "365 beijos apaixonados", coletânea de frases de amor que entre Baudelaire e trechos da sabedorias populares cita belas palavras sobre o tema proposto. Era mesmo uma declaração de amor, me lembro de ter ganhado este livro porque em um discussão com um namoradinho da juventude eu o acusei de não saber nada sobre mim, nem eu mesma sabia alguma coisa sobre mim com 17 anos, e no dia seguinte ele me chamou entre as grades do portão, me deu o livro e um cartão separado que dizia: "sei muito sobre ti, por isso não deixei dedicatória no livro e escrevi este cartão, porque o amor que tens pelo literatura não permite outras palavras que firam a obra do autor. Desculpa por ontem, te amo". Sim ele sabia muito sobre mim pelo menos no que diz respeito a pedidos de desculpa e meu amor por livros. 
Na busca pelo cartão encontrei uma caixa cheia de "eu te amo", assumi minha culpa pelos amores interrompidos em vinte minutos, levei todos esses anos para admitir certas coisas. 
Não reconheço mais as pessoas donas daquelas caligrafias, não sei o caminho que seguiram. 
Os amores que nem iniciei talvez sejam os que mais me doem. Porque na ânsia de querer... por vezes simplesmente não quis, o papel guarda isso: as expectativas de corações alheios, de olhos alheios. Embora não tivesse maturidade emocional naquela época, para julgar o que me faria ou não feliz, eu fui com fé e ao meu lado tive pessoas ótimas, assim como verdadeiros desastres. 
Nos ultimos dois anos desejei reencontrar essas pessoas. E reencontrei quase todas elas, dentro de mim. O menino de sorriso alegre e abraço sempre apertado, o garotinho de lindos olhos azuis cordiais,  a timidez desajeitada dos grandes olhos castanhos daquele outro moço, a infantilidade hilariante em 1,90 de altura, a tristeza das pupilas que junto com os lábios carnudos fazia daquele jovem uma pintura barroca, a menina de olhar fuzilante e perfume adocicado, a jovem mulher de olhos de doce de leite e alma pura. Todas essas personagens contribuíram para moldar minha maturidade emocional, que na verdade funciona como uma massinha de modelar, vai sendo modificada o tempo todo. 
Ainda recordo de muitos outros rostos que fizeram parte dessa construção, entre Rodrigos, Alexandres, Guilhermes, Eltons, Felipes, Camilas vou relendo cada pedacinho de papel com todo carinho que isso requer.    Recoloco a tampa na caixa, e guardo eles com todo meu coração desejando que meus bilhetes também estejam guardados, não de forma física necessariamente mas em pensamentos. E antes de guardar o livro abri em uma página aleatória que diz: "Quem ama como ela amou, envelhece com beleza" (W. Somerset Maugham). Nenhuma explicação isso requer. 

Dezembro 18, 2010

Caio Fernando



"Mandei para a lavanderia os lençóis verde-clarinhos que ainda guardavam o cheiro de Ana - e seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa -, mudei os móveis de lugar, comprei um Kutka e um Gregório, um forno microondas, fitas de vídeo, duas dúzias de copos de cristal, e comecei a trazer outras mulheres para casa. Mulheres que não eram Ana, mulheres que jamais poderiam ser Ana, mulheres que não tinham nem teriam nada a ver com Ana. Se Ana tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes e moles, se Ana tinha os cabelos quase louros, eu as trazia de cabelos pretos, se Ana tivesse a voz rouca eu a selecionava pelas vozes estridentes que gemiam coisas vulgares quando estávamos trepando, bem diversas das que Ana dizia ou não dizia, ela nunca dizia nada além de amor-amor ou meu-menino-querido, passando dos dedos da mão direita na minha nuca e os dedos da mão esquerda pelas minhas costas. Vieram Gina, a das calcinhas pretas, e Lilian, a dos olhos verdes frios, e Beth, das coxas grossas e pés gelados, e Marilene, que fumava demais e tinha um filho, e Mariko, a nissei que queria ser loura, e também Marta, Luiza, Creuza, Júlia, Débora, Vivian, Paula, Teresa, Luciana, Solange, Maristela, Adriana, Vera, Silvia, Neusa, Denise, Karina, Cristina, Marcia, Nadir, Aline e mais de 15 Marias, e uma por uma das garotas ousadas da Rua Augusta, com suas botinhas brancas e minissaia de couro, e destas moças que anunciam especialidades nos jornais. Eu acho que já vim aqui uma vez, alguma dizia, e eu falava não lembro, pode ser, esperando que tirasse a roupa enquanto eu bebia um pouco mais para depois tentar entrar nela, mas meu pau quase nunca obedecia, então eu afundava a cabeça nos seus peitos e choramingava babando sabe, depois que Ana me deixou eu nunca mais, e mesmo quando meu pau finalmente endurecia, depois que eu conseguia gozar seco ardido dentro dela, me enxugar com alguma toalha e expulsá-la com um cheque cinco estrelas, sem cruzar ¿ então eu me jogava de bruços na cama e pedia perdão à Ana por traí-la assim, com aquelas vagabundas. Trair Ana, que me abandonara, doía mais que ela ter me abandonado, sem se importar que eu naufragasse toda noite no enorme corredor de transatlântico daquele apartamento em plena tempestade, sem salva-vidas".

Novembro 09, 2010

Amigos

É fato que uma boa amizade não se resulta apenas em risadas, passeios em plenas sextas ou poses para fotos. Elas estão sempre superando as minhas expectativas, seja através de um sorriso ou um abraço inesperado, como demonstração de carinho, seja com alguns discursos deixando explicitamente a importância de cada um para si mesmo, ou com uma boa gargalhada que evacua como: “Estou feliz em estar aqui, podemos repetir a dose?".
O legal é que não precisamos absolutamente de mais nada ou de mais ninguém para despertar o sentimento de “completo”. Se um fala, o outro completa; se um pensa, o outro flerta e em seus olhos sinaliza a resposta; até mesmo o silêncio possui grande significado. Engraçado saber que não precisamos de muitas coisas para nos divertir, até mesmo o vento que o ônibus proporciona, ao esperar sua chegada, nos faz rir, promovendo lembranças que serão recordadas em algum outro dia qualquer para nos alegrar. Basta alguns cigarros, algumas doses de uma bebida, realmente, viciante em um bar de esquina qualquer.
Quando as lágrimas transbordam as palavras vem do olhar, e da mão que afaga o cabelo, e do suspiro de quem lamenta e de quem escuta, os suspiros conjuntos não se cansam de acontecer. A superação tenta ser conjunta, tende a ser em bando, ou só entre um e outro, ou entre outro e um, abraçando apertado para substituir as palavras: "Pode contar comigo sempre". 
Os sorrisos atrás das xícaras de café, a tristeza por trás do cigarro que é tragado freneticamente, as caminhadas pela Rua da Praia, os sorvetes derretendo pelos dedos e as gargalhadas que isso gera. Tudo muito salutar, tudo com amor.  
Espero poder vivenciar sempre mais, e mais, de momentos especiais e únicos, já que cada um possui seu valor inestimável para mim, tornando-se minha droga preferida, e eu, como uma boa viciada, vou necessitando de sucessivas doses para assim me satisfazer o vício, porque sou, exatamente em todos os sentidos e em todas as palavras, V I C I A D A em vocês.
Espero assim viver por muito tempo podendo contar com o auxílio e o apoio das palavras importantes que me dizem, ou de uma conversa realmente sem nexo nas madrugas, olhar para as fotos e em minha cabeça começar a passar um filme e na boca aquele gostinho de “quero mais”; MUITO mais.
Obrigada a cada um por ser ímpar em seus jeitos & trejeitos. 

Outubro 28, 2010

Passa


Há quem diga que "tudo na vida passa, só o cobrador não passa", velha piadinha que você já deve ter escutado nos tempos de colégio. Mentira. Nada passa. Fica tudo aí, em uma espécie de arquivo morto, arquivado, guardado, mas sem grande utilidade no dia-a-dia. 
É linda a ilusão de que a dor vai passar, mas por que nunca falamos a ninguém que a alegria também vai passar? Não falamos, porque, simplesmente, não passa. 
Brigamos com o namorado e logo um amigo diz: calma, vai passar. Perdemos o emprego injustamente, perdemos o amigo sem saber por que, terminamos relacionamentos e a frase que mais ouvimos é: calma, isso passa. Nada passa, no máximo cessa, no máximo para de doer, por um período, mas está sempre ali, guardado no seu arquivo, se necessário for é só puxar a gaveta e consultar.
São anos e anos de dores, emoções, alegrias que estão arquivadas, elas servem para montar o quebra-cabeça, a pessoa que você está se tornando. 
Até o fim da sua vida todas as suas dores e alegrias vão sendo arquivadas, assim sua personalidade, a maneira de tratar o mundo, as pessoas,  o trabalho, tem muito a ver com o que está ali na primeira gaveta, seção B, arquivo 5.1, 1999. Naquele ano você perdeu o emprego porque havia tido uma desilusão amorosa, estava chorosa, chocada com o  fato de achar que vocês foram feitos um para o outro, passava os dias enviando e-mails, sms, telefonemas que nunca eram respondidos, e quando a resposta estava ali te feriam mais que o silêncio. Você desconcentrou-se, largou o trabalho, pediu para a tia do cafézinho checar as planilhas, ir às reuniões, regar sua plantinha. Fez um convênio com o farmácia para que os lenços de papel fossem mais baratos, já que seria necessário comprar toneladas. Você estava um caco, uma geléca. Algum tempo depois passou. Passou? Não, não passou. A dor cessou. Você começou em um novo trabalho, focada, prometeu nunca mais namorar, não iria mais apaixonar-se. Eis que surge seu lindo colega de trabalho,  e voilá, uma paixão arrebatadora. Dessa vez o trabalho é prioridade, então não deixa acontecer de forma natural, tenta manipular a situação, sempre na defensiva, querendo declarar-se a qualquer momento, mas e se acontecer tudo de novo? Você acaba de puxar o tal arquivo, dá uma dor no peito, o nó na garganta caracteristico. Lê, se aborrece e simplesmente para de responder os e-mails, sms, bilhetinhos românticos do seu mais novo principe encantado. Por quê? Porque nunca passou, e tendo acesso às informações que tornaram você o que é agora será difícil deixar alguém entrar novamente no seu mundo sem receios, sem medos. Você dispensa o cara que poderia, talvez, ser realmente a pessoa certa. Não se arrepende agora, mas já arquivou na seção N, arquivo 4.0, 2002, mais tarde ele se apaixona por outra, uma amiga sua, que lhe conta o quanto ele é gentil, amoroso, honesto, trabalhador, inteligente e que foi a melhor transa dela. Opa! lá vai você puxar a pasta no arquivo, acrescentar uma nota "se arrependimento matasse", isso servirá no futuro, não tenha dúvida.
Falta mesmo é coragem dos amigos nos darem a informação correta, não passa, mas alivia. As dúvidas na hora de fazer uma escolha, a dor da perda, a dor da saudade, a dor do fracasso, a dor de não corresponder uma expectativa, parecem pequenas para quem está de fora, mas é como um bichinho dançando no nosso estômago o tempo todo. O bichinho corre de um lado para o outro relutante, ele não vai embora, vai só tirar uma soneca. 
Tristezas, alegrias, dores não passam. Você não conseguiu parar de pensar no quanto o sorriso dele era lindo, o primeiro prêmio pelo reconhecimento do seu trabalho, os dias em que dançou na chuva, os abraços reconfortantes, o beijo quente em um dia frio que ela lhe deu, os olhares calorosos, o adeus de quem amou, o silêncio não consentido, a briga, o choro, o riso, o sorriso, a mão estendida e mais que depressa recolhida, tudo isso, lentamente, nos forma. Nada se perder nesse jogo, que aos poucos é montado, e que muito demora, vamos levar a vida toda para montarmos nosso quebra-cabeça pessoal e nenhuma peça será deixada de lado, as peças menos visualizadas chamamos de "isso passa". E quando você menos espera será necessário pegar uma porção de "isso passa" dentro do arquivo, porque são as peças necessárias no tabuleiro naquele instante. Vá montando, um dia, quem sabe, você conseguirá se enxergar totalmente. Nada passa, mas nem por isso serve para que deixemos de fazer algo por medo da dor. 

Outubro 17, 2010

Cólera



Então ele estendeu os dedos gelados na escuridão, buscou tateando a outra mão na escuridão, e a encontrou à espera. Ambos foram bastante lúcidos para perceber, num mesmo instante fugaz, que nenhuma das duas era a mão que tinham imaginado antes de se tocar, e sim duas mãos de ossos velhos. Mas no instante seguinte já eram. (…)

Firmina Daza parou de fumar para não soltar a mão que ele guardava na sua. Estava perdida na ansiedade de compreender (…) e no entanto encontrava mais tropeços do que complacências na evocação de sua vida, demasiadas incompreensões recíprocas, brigas inúteis, rancores mal solucionados. Suspirou de repente: “É incrível como se pode ser tão feliz durante tantos anos, no meio de tanto bate-boca, tantas chateações, porra, sem saber de verdade se isso é amor ou não”. Quando acabou de desabafar, alguém tinha apagado a lua. 
(…)
- Sigamos em linha reta, reta, reta, outra vez até a Dourada. 
Fermina Daza estremeceu, porque reconheceu a antiga voz iluminada pela graça do Espírito Santo, e olhou o comandante: ele era o destino. Mas o comandante não a a viu, porque estava anonadado pelo tremendo poder de inspiração de Florentino Ariza. 
- Está dizendo isso a sério? - perguntou.
- Desde que nasci - disse Florentino Ariza - não disse uma única coisa que não fosse a sério. 
O comandante olhou Firmina Daza e viu em suas pestanas os primeiros lampejos de um orvalho de inverno. Depois olhou Florentino Ariza, seu domínio invencível, seu amor impávido, e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites. 
- E até quando acredita o senhor que podemos continuar nesse ir e vir do caralho? - perguntou.
Florentino Ariza tinha a resposta preparada havia cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites. 
- Toda vida - disse.

O amor nos tempos do cólera”

Quintana

Nunca diga te amo se não te interessa. 
Nunca fale sobre sentimentos se estes não existem. 
Nunca toque numa vida se não pretende 
romper um coração. 
Nunca olhe nos olhos de alguém se não quiser vê-lo se derramar 
em lágrimas por causa de ti. 
A coisa mais cruel que alguém pode fazer é permitir que 
alguém se apaixone por você quando você não pretende fazer o mesmo.
Mário Quintana

Identificação II