"Mandei para a lavanderia os lençóis verde-clarinhos que ainda guardavam o cheiro de Ana - e seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa -, mudei os móveis de lugar, comprei um Kutka e um Gregório, um forno microondas, fitas de vídeo, duas dúzias de copos de cristal, e comecei a trazer outras mulheres para casa. Mulheres que não eram Ana, mulheres que jamais poderiam ser Ana, mulheres que não tinham nem teriam nada a ver com Ana. Se Ana tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes e moles, se Ana tinha os cabelos quase louros, eu as trazia de cabelos pretos, se Ana tivesse a voz rouca eu a selecionava pelas vozes estridentes que gemiam coisas vulgares quando estávamos trepando, bem diversas das que Ana dizia ou não dizia, ela nunca dizia nada além de amor-amor ou meu-menino-querido, passando dos dedos da mão direita na minha nuca e os dedos da mão esquerda pelas minhas costas. Vieram Gina, a das calcinhas pretas, e Lilian, a dos olhos verdes frios, e Beth, das coxas grossas e pés gelados, e Marilene, que fumava demais e tinha um filho, e Mariko, a nissei que queria ser loura, e também Marta, Luiza, Creuza, Júlia, Débora, Vivian, Paula, Teresa, Luciana, Solange, Maristela, Adriana, Vera, Silvia, Neusa, Denise, Karina, Cristina, Marcia, Nadir, Aline e mais de 15 Marias, e uma por uma das garotas ousadas da Rua Augusta, com suas botinhas brancas e minissaia de couro, e destas moças que anunciam especialidades nos jornais. Eu acho que já vim aqui uma vez, alguma dizia, e eu falava não lembro, pode ser, esperando que tirasse a roupa enquanto eu bebia um pouco mais para depois tentar entrar nela, mas meu pau quase nunca obedecia, então eu afundava a cabeça nos seus peitos e choramingava babando sabe, depois que Ana me deixou eu nunca mais, e mesmo quando meu pau finalmente endurecia, depois que eu conseguia gozar seco ardido dentro dela, me enxugar com alguma toalha e expulsá-la com um cheque cinco estrelas, sem cruzar ¿ então eu me jogava de bruços na cama e pedia perdão à Ana por traí-la assim, com aquelas vagabundas. Trair Ana, que me abandonara, doía mais que ela ter me abandonado, sem se importar que eu naufragasse toda noite no enorme corredor de transatlântico daquele apartamento em plena tempestade, sem salva-vidas".
dezembro 18, 2010
novembro 09, 2010
Amigos
É fato que uma boa amizade não se resulta apenas em risadas, passeios em plenas sextas ou poses para fotos. Elas estão sempre superando as minhas expectativas, seja através de um sorriso ou um abraço inesperado, como demonstração de carinho, seja com alguns discursos deixando explicitamente a importância de cada um para si mesmo, ou com uma boa gargalhada que evacua como: “Estou feliz em estar aqui, podemos repetir a dose?".
O legal é que não precisamos absolutamente de mais nada ou de mais ninguém para despertar o sentimento de “completo”. Se um fala, o outro completa; se um pensa, o outro flerta e em seus olhos sinaliza a resposta; até mesmo o silêncio possui grande significado. Engraçado saber que não precisamos de muitas coisas para nos divertir, até mesmo o vento que o ônibus proporciona, ao esperar sua chegada, nos faz rir, promovendo lembranças que serão recordadas em algum outro dia qualquer para nos alegrar. Basta alguns cigarros, algumas doses de uma bebida, realmente, viciante em um bar de esquina qualquer.
Quando as lágrimas transbordam as palavras vem do olhar, e da mão que afaga o cabelo, e do suspiro de quem lamenta e de quem escuta, os suspiros conjuntos não se cansam de acontecer. A superação tenta ser conjunta, tende a ser em bando, ou só entre um e outro, ou entre outro e um, abraçando apertado para substituir as palavras: "Pode contar comigo sempre".
Os sorrisos atrás das xícaras de café, a tristeza por trás do cigarro que é tragado freneticamente, as caminhadas pela Rua da Praia, os sorvetes derretendo pelos dedos e as gargalhadas que isso gera. Tudo muito salutar, tudo com amor.
Espero poder vivenciar sempre mais, e mais, de momentos especiais e únicos, já que cada um possui seu valor inestimável para mim, tornando-se minha droga preferida, e eu, como uma boa viciada, vou necessitando de sucessivas doses para assim me satisfazer o vício, porque sou, exatamente em todos os sentidos e em todas as palavras, V I C I A D A em vocês.
Espero assim viver por muito tempo podendo contar com o auxílio e o apoio das palavras importantes que me dizem, ou de uma conversa realmente sem nexo nas madrugas, olhar para as fotos e em minha cabeça começar a passar um filme e na boca aquele gostinho de “quero mais”; MUITO mais.
Obrigada a cada um por ser ímpar em seus jeitos & trejeitos.
outubro 28, 2010
Passa
Há quem diga que "tudo na vida passa, só o cobrador não passa", velha piadinha que você já deve ter escutado nos tempos de colégio. Mentira. Nada passa. Fica tudo aí, em uma espécie de arquivo morto, arquivado, guardado, mas sem grande utilidade no dia-a-dia.
É linda a ilusão de que a dor vai passar, mas por que nunca falamos a ninguém que a alegria também vai passar? Não falamos, porque, simplesmente, não passa.
Brigamos com o namorado e logo um amigo diz: calma, vai passar. Perdemos o emprego injustamente, perdemos o amigo sem saber por que, terminamos relacionamentos e a frase que mais ouvimos é: calma, isso passa. Nada passa, no máximo cessa, no máximo para de doer, por um período, mas está sempre ali, guardado no seu arquivo, se necessário for é só puxar a gaveta e consultar.
São anos e anos de dores, emoções, alegrias que estão arquivadas, elas servem para montar o quebra-cabeça, a pessoa que você está se tornando.
Até o fim da sua vida todas as suas dores e alegrias vão sendo arquivadas, assim sua personalidade, a maneira de tratar o mundo, as pessoas, o trabalho, tem muito a ver com o que está ali na primeira gaveta, seção B, arquivo 5.1, 1999. Naquele ano você perdeu o emprego porque havia tido uma desilusão amorosa, estava chorosa, chocada com o fato de achar que vocês foram feitos um para o outro, passava os dias enviando e-mails, sms, telefonemas que nunca eram respondidos, e quando a resposta estava ali te feriam mais que o silêncio. Você desconcentrou-se, largou o trabalho, pediu para a tia do cafézinho checar as planilhas, ir às reuniões, regar sua plantinha. Fez um convênio com o farmácia para que os lenços de papel fossem mais baratos, já que seria necessário comprar toneladas. Você estava um caco, uma geléca. Algum tempo depois passou. Passou? Não, não passou. A dor cessou. Você começou em um novo trabalho, focada, prometeu nunca mais namorar, não iria mais apaixonar-se. Eis que surge seu lindo colega de trabalho, e voilá, uma paixão arrebatadora. Dessa vez o trabalho é prioridade, então não deixa acontecer de forma natural, tenta manipular a situação, sempre na defensiva, querendo declarar-se a qualquer momento, mas e se acontecer tudo de novo? Você acaba de puxar o tal arquivo, dá uma dor no peito, o nó na garganta caracteristico. Lê, se aborrece e simplesmente para de responder os e-mails, sms, bilhetinhos românticos do seu mais novo principe encantado. Por quê? Porque nunca passou, e tendo acesso às informações que tornaram você o que é agora será difícil deixar alguém entrar novamente no seu mundo sem receios, sem medos. Você dispensa o cara que poderia, talvez, ser realmente a pessoa certa. Não se arrepende agora, mas já arquivou na seção N, arquivo 4.0, 2002, mais tarde ele se apaixona por outra, uma amiga sua, que lhe conta o quanto ele é gentil, amoroso, honesto, trabalhador, inteligente e que foi a melhor transa dela. Opa! lá vai você puxar a pasta no arquivo, acrescentar uma nota "se arrependimento matasse", isso servirá no futuro, não tenha dúvida.
Falta mesmo é coragem dos amigos nos darem a informação correta, não passa, mas alivia. As dúvidas na hora de fazer uma escolha, a dor da perda, a dor da saudade, a dor do fracasso, a dor de não corresponder uma expectativa, parecem pequenas para quem está de fora, mas é como um bichinho dançando no nosso estômago o tempo todo. O bichinho corre de um lado para o outro relutante, ele não vai embora, vai só tirar uma soneca.
Tristezas, alegrias, dores não passam. Você não conseguiu parar de pensar no quanto o sorriso dele era lindo, o primeiro prêmio pelo reconhecimento do seu trabalho, os dias em que dançou na chuva, os abraços reconfortantes, o beijo quente em um dia frio que ela lhe deu, os olhares calorosos, o adeus de quem amou, o silêncio não consentido, a briga, o choro, o riso, o sorriso, a mão estendida e mais que depressa recolhida, tudo isso, lentamente, nos forma. Nada se perder nesse jogo, que aos poucos é montado, e que muito demora, vamos levar a vida toda para montarmos nosso quebra-cabeça pessoal e nenhuma peça será deixada de lado, as peças menos visualizadas chamamos de "isso passa". E quando você menos espera será necessário pegar uma porção de "isso passa" dentro do arquivo, porque são as peças necessárias no tabuleiro naquele instante. Vá montando, um dia, quem sabe, você conseguirá se enxergar totalmente. Nada passa, mas nem por isso serve para que deixemos de fazer algo por medo da dor.
outubro 17, 2010
Cólera
Então ele estendeu os dedos gelados na escuridão, buscou tateando a outra mão na escuridão, e a encontrou à espera. Ambos foram bastante lúcidos para perceber, num mesmo instante fugaz, que nenhuma das duas era a mão que tinham imaginado antes de se tocar, e sim duas mãos de ossos velhos. Mas no instante seguinte já eram. (…)
Firmina Daza parou de fumar para não soltar a mão que ele guardava na sua. Estava perdida na ansiedade de compreender (…) e no entanto encontrava mais tropeços do que complacências na evocação de sua vida, demasiadas incompreensões recíprocas, brigas inúteis, rancores mal solucionados. Suspirou de repente: “É incrível como se pode ser tão feliz durante tantos anos, no meio de tanto bate-boca, tantas chateações, porra, sem saber de verdade se isso é amor ou não”. Quando acabou de desabafar, alguém tinha apagado a lua.
(…)
- Sigamos em linha reta, reta, reta, outra vez até a Dourada.
Fermina Daza estremeceu, porque reconheceu a antiga voz iluminada pela graça do Espírito Santo, e olhou o comandante: ele era o destino. Mas o comandante não a a viu, porque estava anonadado pelo tremendo poder de inspiração de Florentino Ariza.
- Está dizendo isso a sério? - perguntou.
- Desde que nasci - disse Florentino Ariza - não disse uma única coisa que não fosse a sério.
O comandante olhou Firmina Daza e viu em suas pestanas os primeiros lampejos de um orvalho de inverno. Depois olhou Florentino Ariza, seu domínio invencível, seu amor impávido, e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites.
- E até quando acredita o senhor que podemos continuar nesse ir e vir do caralho? - perguntou.
Florentino Ariza tinha a resposta preparada havia cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites.
- Toda vida - disse.
“O amor nos tempos do cólera”
Quintana
Nunca diga te amo se não te interessa.
Nunca fale sobre sentimentos se estes não existem.
Nunca toque numa vida se não pretende
romper um coração.
Nunca olhe nos olhos de alguém se não quiser vê-lo se derramar
em lágrimas por causa de ti.
A coisa mais cruel que alguém pode fazer é permitir que
alguém se apaixone por você quando você não pretende fazer o mesmo.
Dentes
Visto o meu melhor sorriso, visto sim, mas não todo dia. São os especiais, os verdadeiros e os - que parecem - etéreos que me veem com essa vestimenta. No entanto percebo que, por vezes, estou trajando ares de felicidade, com direito a brilho nos olhos, boca escancarada na tentativa de, talvez, mostrar até meu ciso, mas ninguém está comigo, nem mesmo a dez metros de mim, nem nada. Nem um óbvio olhar, ou outro coisa qualquer. Poderia ser uma árvore no outono, porque na minha opinião o outono dá ares extra-sensoriais aos seres, as folhas marrons, secas, desnutridas ao redor do tronco são agora livres e vão para onde entenderem, mas sabe-se muito bem que elas mantém um relacionamento amoroso com o vento, são antigos amantes. A árvore solitária ficaria feliz com meu traje do momento, mas ela não está lá. Que infortúnio.
A fatídica ordem das minhas decisões, vestir meu melhor sorriso baseada em lembranças. Como isso daria certo? Abalada e embalada pela incongruência de minha pergunta faço mais perguntas, muitas, sem tempo de respirar, sem vírgula, sem sentido e não chego a um denominador comum, denominador nenhum chego eu. Cíclico, isso é cíclico, roda viva, essas coisas de tv, jornal e rádio, essas coisas que dizem na internet. É cíclico, aguarde o momento certo. Mas e quando é? E se passar e eu estiver no ponto esperando e não fizer o sinal? E se eu embarcar no momento certo e ele não for tão certo assim? E se o cobrador me contar a ladainha de sua vida cotidiana fazendo com que eu puxe a cordinha e desça antes do momento certo? Mas, hein, viu? Não saberei quando será o momento certo para estar com meus dentes a postos, vestindo o meu melhor sorriso, por isso tento o tempo todo estar muito bem vestida, não quero decepcionar. Contudo, no entanto, todavia, porém, não quero ser decepcionada, e tenho a impressão de estar trajando gala para ir ao boteco da esquina, embarquei no "momento certo" faz muito, faz dias, meses, anos e nunca puxei a cordinha, porque não sei se quero saltar ou ficar nesse eterno molejo de quando se entra em buracos, passa por quebra-molas ou para em sinaleiras na madrugada. Certeza se eu vou acertar o ponto e puxar a bendita cordinha a tempo eu não tenho, do cíclico brota o novo. E no antigo-novo deposito minha sinceridade. Estava apenas procurando o e não um, motivo, ser, amor, carinho, entorno, olho, cabelo, cheiro. Agora cá estou vestindo meu melhor sorriso para escrever essas frases que, apesar de toda punhetagem blá blá blá, pode não fazer o menor sentido a quem se destina e se destina, será? Minhas perguntas e eu, belos amantes.
outubro 16, 2010
Litania
Boca. A voz é pura eufonia. Uma tragada de sentimentos. Seguro bem fundo, prendo ao máximo, deixo preencher meus pulmões. Não penso, não espero, não agradeço, apenas prendo...
solto. E o que então preenchia o vazio sai em forma de nuvem, uma nuvem escura, densa, que brinca comigo quando não se dissipa facilmente, porque há tempo, e tempos, então novamente vazia penso, espero e ainda assim não agradeço. Tenho fome, o tempo todo, de saber, de querer, de estar, de aprender, de digressionar e ao mesmo tempo simplesmente me sinto cheia, saciedade da obviedade sobre meus quereres. A voz. A eufonia.
Ouvidos. Escuta, você pode? Um suspiro. A nuvem, ela foi abraçada com o vento e passou aqui, bem no pé d'ouvido revelando mais do que fumaça escura, mais do que vazio. Percebi, eu esqueci. Assopra e assopra sem nenhum sentido, e mais uma tragada, mais uma e mais uma. Estou cheia de novo, de vez, de querer. E permaneço sem agradecer, e por que o faria afinal? Eu preciso de um argumento, algo válido e que não me tome muito tempo. Que seja dito e entendido, rápido e pontual, uma frase pronta, eu gosto de frases prontas, eu gosto de citações, meu argumento não precisa fazer sentido, mas não pode causar discussões, precisa estourar nos ouvidos e fazer a boca abrir-se, mas não a tempo de escutar a eufonia da voz. Uma tragada. Uma frase de efeito, é isso, bravo. aquele tipo de frase que faz os olhos abrirem-se, as pestanas dançarem tão rápido que se pode sentir um sopro do outro lado da mesa, as cordas vocais vibrarem em si bemol, precisa suscitar uma festa no rosto de quem espera meu argumento. Mas parece lento, as pestanas não dançam, se fecham lentamente e abrem-se novamente, diversas vezes. A boca saliva, a língua molha os lábios, não há eufonia. Solto. E antes da ultima tragada, percebo o som de outra nuvem que se dissipa próxima ao lóbulo da orelha esquerda. Então agradeço, sem argumento. E percebo que a explosão de fogos de artifício, não precisa ser tão artificial assim. E que as nuvens de vazio e sede bispam juntas, pelo menos até a próxima tragada.
Identificação.
De delicada sensibilidade, graciosa e quase etéria, sonhadora e profunda em suas reflexões, vive fora da realidade e não lhe importa o mundo ao seu redor. Benevolente, extrovertida, exuberante, justa e alegre. E então posso achá-la muito sensual, fácil às tentações, indolente. Não se pode generalizar isso: ainda que de modo corrente essas duas tendências se equilibrem, predomina em especial uma delas.
De ares um tanto "donjuanesco", fortemente sensual. Nunca um beijo se repetiu, mesmo que a boca beijada já tivesse o experimentado. Doação.
Reunido em uma alma de músico, escritor, poeta e de todas facetas estéticas.
Representante de um consequente escapismo, a fuga do mundo, o devaneio e o ar vago, a modéstia e um certo ar de vítima do mundo que exibe.
Muitas vezes saltimbanco na vida, sem saber muito bem como anda e para onde vai, sempre seguindo sua intuição e sua sensibilidade artística. E ao enxergar com olhos amplos, fixos no horizonte pouco lhe interessa os detalhes. "Navegar é preciso". Uma pessoa lítica, incompreendida, sentimental ao extremo, capaz das maiores loucuras e das maiores provas de compaixão humana.
Pessoas são como música
"When you look with your eyes everything seems nice", não me lembro de onde eu tirei essa frase, de uma música do Placebo, acredito, porque tenho escutado muito Placebo ultimamente, e Kasabian e um monte de velharias. Porque velharia trás saudosismo, trás aquele cheiro de poeira, de coisas guardadas, sentimentos guardados. O que foi bom, foi perceber que essas músicas já não me fazem lembrar da mesma pessoa, na verdade, acho que recolho o pó de lá, e jogo todo por cima de mim atualmente, mas sem sentimento nenhum, por ninguém, elas pertencem apenas a mim agora. Era divertido ficar horas esperando, com o mp3 no ouvido, ouvindo SEMPRE o mesmo cd, semana após semana, depois eu trocava.
Era divertido assistir o DVD de manhã bem cedo, porque ainda morava com meus pais, e lá eu precisava acordar realmente cedo, então enquanto eu comia granola, eu assistia o mesmo DVD, as mesmas músicas, e gostava, e ficava bem feliz de manhã.
Já faz quatro anos que não moro mais na casa em que fui criada, mas mantenho os mesmo hábitos, granola e música de manhã.
Engraçado como eu me divertia fácil, mas ao mesmo tempo achava que era a pessoa que mais tinha problemas no mundo, eu tinha recem completado vinte anos, uma criança, e achava que precisava segurar o mundo com as costas, pobre de mim, ingenuidade sempre foi um problema, acho que de família.
Enfim, voltamos às músicas, Nietzsche disse "Sem música a vida seria um erro", concordo, consigo destinar uma música a cada pessoa que conheço, normalmente não só pela letra, mas pelos arranjos, melodia, e por tudo que os minutos que ela dura envolvem, agradeço por ter tido aulas de música na infância, agradeço por saber tocar trompete e saxofone, mas fico triste comigo mesma por não decifrar mais as partituras com tanta desenvoltura, quando eu tinha 13 anos era mole mole.
Então cada pessoa que conheço tento decifrar , e quase sempre eu presto tanta atenção em seus olhos que depois não consigo esquecer, quando me cativam é algo absurdo, não consigo pensar na pessoa como um todo, penso nos olhos, e penso também no cheiro, porque cada um tem seu próprio perfume, naturalmente, sem perfumes caros, loções pós-barba, desodorantes, apenas o cheiro. Se ele conquista, é difícil, porque não haverá mais ninguém com o mesmo perfume, e você precisará da pessoa para abraçar, e com o olhos e o aroma, vem os abraços apertados, os beijos na bochecha, e quem sabe, os lábios se toquem e as mão se cruzem.
Isso tudo é como música, deve existir um início, uma ordem, uma sinfonia, pode ser longa, curta, infindável se você ligar o repet, pode ser que nunca tenha sido e que nessa canção você esteja apenas fazendo movimentações labiais, assim a outra pessoa não entende nada, e dá um stop, pode ser que você esteja, apenas, procurando a maneira de fazer com que o sol entre antes do ré, fazer com que as pessoas percebam que tipo de canção você é, antes de rotular.
Como saber se uma música é clássica, boa ou não, se você só a escuta no rádio as vezes, é necessário empenho, compre o cd, leia o encarte, escute várias vezes, e veja se a melodia e a letra cativam, depois disso você tem opções, ou deixa o cd jogado de lado, ou escuta todo ele até o final, percebendo,assim, que você só precisava deixar a canção inundar sua alma. Escute uma música que você já julga má ideia, com mais atenção, enxergue as pessoas ao seu redor da mesma forma, questione, não julgue, não precipite-se, abra seus olhos e mente para o novo. Deixe-se sentir bem. Sem barreiras, escute a música, não somente a ouça.
Se eu conheço você pessoalmente, ou via web, há um tempo, certamente tenho uma música que acho ser sua, a SUA música, me pergunte qual. Terei o maior prazer em contar-lhe. Um ótimo domingo a todos.
Encaixe
Eu e essa minha vontade incipiente de erguer os braços, em uma cadeira de praia, no nosso lindo litoral. Em uma mão um bom livro, na outra mão... bom, na outra mão tenho opções, água de coco, caipirinha, picolé de limão, picolé de morango, picolés de sabores de fruta, um copo d’água ou simplesmente outra mão? Outra mão na minha mão. E eu até imagino a mão, sei que mão, sei como iria encaixar na minha, já encaixou, algumas vezes, e todas as vezes os olhos pertencente ao mesmo corpo que a mão, me olharam nos olhos e deram um sorriso, com uma boca tímida e satisfeita.
Por que é tão bom: mãos nas mãos, olhos nos olhos, sorrisos sinceros? Por que as mãos se encaixam, eu fiquei pensando nisso, independe do tamanho, elas encaixam, poucas vezes uma mão não encaixou com a minha, e pude perceber que os olhos pertencentes aquele corpo também não olhavam nos meus, larguei essa mão de mão, e não fiz mal. Inclusive a vi, há pouco tempo, encaixada com outra mão, me senti feliz, estranha felicidade, mas feliz.
Minha avó dizia que eu tinha dedos de pianista, como os dela, longos, que eu deveria investir nas artes, pintar, poderia ter habilidade com pincéis, minha avó me dizia isso quando eu tinha apenas cinco anos, ela faleceu e não pôde ver que realmente tenho as mãos como as dela, dedos longos, de pianista. Acho que ela ficaria feliz em saber que eu toco saxofone, justamente por eu ter mãos grandes.
Gosto de mãos, e isso eu percebi por acaso, no dia em que minha sobrinha colocou sua mãozinha de bebê na minha, como sinal de aprovação ao sorriso que eu estampava ao ver ela dar os primeiros passos, ter a mão dela na minha foi como ouvir “eu confio em você para me segurar”, então percebi o quanto eu gosto que as mão encaixem, que os lábios sorriam e que os olhos se cruzem, tudo em movimentos leves, tudo sem pressão, tudo delicadamente e quando perceber eu estarei no litoral, com um livro em uma mão, e um encaixe perfeito na outra.
Para abrir os olhos
Fazia muito que não tinha maratonas como ontem à noite, três festas, fui perdendo pessoas em cada uma em que entrei. Algumas com nome sugestivo, Orgamos de (quatro) anos, algumas nem sei o nome.
Em busca de algo que não sabiamos o que era, fomos ao lugar de costume, nem mesmo o fato de não poder fumar na pista de dança me deixa injuriada quando se trata do Cabaret, nome sugestivo, um inferninho que frequento há anos, e que ultimamente tem me feito enxergar certas obviedades que não costumo ver normalmente.
Não sei identificar coisas óbvias, me dá dor de cabeça, às vezes, dependendo da situação após algumas horas minha ficha cai, outras coisas demoram dias, mas elas caem um dia, nem sempre eu gosto do gosto do processo de ver tão claro o que antes me parecia um emaranhado de informações.
Dancei música lenta, rostinho colado, tudo de brincadeira -gosto de covinhas - existem pessoas que me fazem sorrir naturalmente, gosto de rir com o pessoal que trabalha no bar, são pessoas de bem, são divertidos, e ontem eu precisava liberar minha energia, então dancei ensandecidamente durante um bom tempo. Parecia uma dança sem fim, dentro de uma tempestade, onde eu enxergava apenas meus pés, mãos e braços, escutava a música, sentia o suor, sentia as pessoas que esbarravam em mim, mas não podia ve-las, permaneci assim.
Às 5h da manhã sentei-me em um sofá rasgado, sujo e molhado, com os pés doloridos e a cabeça ainda girando pela bebida que havia consumido em casa, mas já estava sóbria. Sobriedade que me fez imaginar estar em um clipe do Chemical Brothers. Depois de dançar por horas e me sentir eufórica, com muita energia, esse sofá me acolheu, me abraçou, e eu me deixei envolver, mesmo com todos os seus defeitos, mesmo com todos os seus furos, e rasgões ele era minha porta de entrada para o inicio da observação da noite.
Quando eu falo em Chemical Brothers me refiro à música 'Hey girls, hey boys', em que uma mulher pode ver os esqueletos das pessoas se movimentando, como se não existisse carne, como se todos fossem iguais. Eu me sentia assim ontem, eu não ocnseguia ver os rostos, não sentia os cheiros, não conseguia nem me expressar por palavras, meus olhos se movimentavam em uma velocidade tamanha, eu queria captar tudo ontem, mas parecia que as pessoas estavam drogadas demais, bêbadas demais para verem certas coisas: a menina baixinha, de trancinhas no cabelo, não percebeu, ao dançar de olhos fechados, que o rapaz ao seu lado lhe olhava atentamente, cada passo, cada gesto dela era acompanhado pelos olhos do espectador atento. O movimento suave do seu corpo, o balançar do cabelo fazia com que o menino não conseguisse desviar o olhar, ele só o fez quando seu amigo derramou cerveja em suas calças.
O menino loiro que beijava o moreno, o abraçava com tanta ternura que deduzi que eram namorados, suas mãos percorriam o rosto do companheiro, passavam pelos cabelos e repousavam cruzadas atrás das costas do rapaz, e assim eles ficaram por um longo tempo, admirando uma ou outro, sem beijos, apenas com toques. Eles se foram. Deram as mãos e foram, não vi movimentação labial, acho que era explícita a vontade dos dois, e eles se entendiam.
Havia duas meninas e dois rapazes muitos alterados, suados e frenéticos, a cada música pulavam mais e mais, bebiam mais e mais, era reconfortante estar sentada e sóbria.
Perdi a voz. Talvez por ter gritado umas sete músicas seguidas, talvez por já estar gripada, talvez por ter fumado, fumei pouco, bebi pouco, mas o suficiente para as duas coisas me fazerem mal, e de repente acender uma luz dentro de mim, aquela voz que provavelmente aparece um dia na vida: "se te faz mal, pára, isso é para abrir os olhos".
E eu abri, e vi que todas as pessoas na minha volta estavam envoltas em seus mundos, de olhos bem fechados, não no sentido literal. Eu queria poder abrir os olhos de cada um, mas são tantos e eu sou apenas uma garota.
Com os olhos abertos, muito abertos, fui me despedir, um por um, novos e velhos amigos, agradecendo mentalmente por cada um fazer parte do meu mundo de olhos abertos, e de não me julgarem por eu, às vezes, ter meus momentos de olhos fechados.
Aprendi o real sentido de palavras carinhosas, e consegui aceitá-las, não consigo aceitar normalmente, mas aceitei, aprendi o não, e o sim, e por vezes fiquei em dúvida entre os dois. Já não me pertencem as dúvidas, consigo distinguir, espero.
Conta paga, chuva, táxi!
Pedi para o taxisista me deixar uma esquina antes, e descalça caminhei vagarosamente até em casa, sentindo os pingos baterem na minha pele e deixarem as ultimas fragrâncias do meu perfume irem embora. Uma mistura de suor, perfume, e outros cheiros, escorregavam por meus cabelos, e corpo, e morriam no chão.
Casa, banho quente, cama, lençóis negros. Fechar os olhos novamente, mas dessa vez apenas no sentido literal.
Abri os olhos, minha cabeça dói, e só consigo pensar em aspirinas, e em uma TV no meu quarto, ficar deitada o dia todo, sem me mexer, sem movimentações, sem telefone, ou internet, apenas eu e meus pensamentos, mas não gostaria de me afogar nesse dia, gostaria sim de conversas amigas, cheiro de flores, sem cigarros, sem bebidas, sem nunca mias fechar os olhos . E dou de cara com pessoas queridas, que todo dia conversam, todo dia se fazem presentes, e mesmo em situações adversas, me olham nos olhos, e dialogam palavras para abrir os olhos, os meus e os deles.. e os de quem não sabe ver certas obviedades.
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