solto. E o que então preenchia o vazio sai em forma de nuvem, uma nuvem escura, densa, que brinca comigo quando não se dissipa facilmente, porque há tempo, e tempos, então novamente vazia penso, espero e ainda assim não agradeço. Tenho fome, o tempo todo, de saber, de querer, de estar, de aprender, de digressionar e ao mesmo tempo simplesmente me sinto cheia, saciedade da obviedade sobre meus quereres. A voz. A eufonia.
Ouvidos. Escuta, você pode? Um suspiro. A nuvem, ela foi abraçada com o vento e passou aqui, bem no pé d'ouvido revelando mais do que fumaça escura, mais do que vazio. Percebi, eu esqueci. Assopra e assopra sem nenhum sentido, e mais uma tragada, mais uma e mais uma. Estou cheia de novo, de vez, de querer. E permaneço sem agradecer, e por que o faria afinal? Eu preciso de um argumento, algo válido e que não me tome muito tempo. Que seja dito e entendido, rápido e pontual, uma frase pronta, eu gosto de frases prontas, eu gosto de citações, meu argumento não precisa fazer sentido, mas não pode causar discussões, precisa estourar nos ouvidos e fazer a boca abrir-se, mas não a tempo de escutar a eufonia da voz. Uma tragada. Uma frase de efeito, é isso, bravo. aquele tipo de frase que faz os olhos abrirem-se, as pestanas dançarem tão rápido que se pode sentir um sopro do outro lado da mesa, as cordas vocais vibrarem em si bemol, precisa suscitar uma festa no rosto de quem espera meu argumento. Mas parece lento, as pestanas não dançam, se fecham lentamente e abrem-se novamente, diversas vezes. A boca saliva, a língua molha os lábios, não há eufonia. Solto. E antes da ultima tragada, percebo o som de outra nuvem que se dissipa próxima ao lóbulo da orelha esquerda. Então agradeço, sem argumento. E percebo que a explosão de fogos de artifício, não precisa ser tão artificial assim. E que as nuvens de vazio e sede bispam juntas, pelo menos até a próxima tragada.

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