outubro 17, 2010

Dentes



Visto o meu melhor sorriso, visto sim, mas não todo dia. São os especiais, os verdadeiros e os - que parecem - etéreos que me veem com essa vestimenta. No entanto percebo que, por vezes, estou trajando ares de felicidade, com direito a brilho nos olhos, boca escancarada na tentativa de, talvez, mostrar até meu ciso, mas ninguém está comigo, nem mesmo a dez metros de mim, nem nada. Nem um óbvio olhar, ou outro coisa qualquer.  Poderia ser uma árvore no outono, porque na minha opinião o outono dá ares extra-sensoriais aos seres, as folhas marrons, secas, desnutridas ao redor do tronco são agora livres e vão para onde entenderem, mas sabe-se muito bem que elas mantém um relacionamento amoroso com o vento, são antigos amantes. A árvore solitária ficaria feliz com meu traje do momento, mas ela não está lá. Que infortúnio. 
A fatídica ordem das minhas decisões, vestir meu melhor sorriso baseada em lembranças. Como isso daria certo? Abalada e embalada pela incongruência de minha pergunta faço mais perguntas, muitas, sem tempo de respirar, sem vírgula, sem sentido e não chego a um denominador comum, denominador nenhum chego eu. Cíclico, isso é cíclico, roda viva, essas coisas de tv, jornal e rádio, essas coisas que dizem na internet. É cíclico, aguarde o momento certo. Mas e quando é? E se passar e eu estiver no ponto esperando e não fizer o sinal? E se eu embarcar no momento certo e ele não for tão certo assim? E se o cobrador  me contar a ladainha de sua vida cotidiana fazendo com que eu puxe a cordinha e desça antes do momento certo? Mas, hein, viu? Não saberei quando será o momento certo para estar com meus dentes a postos, vestindo o meu melhor sorriso, por isso tento o tempo todo estar muito bem vestida, não quero decepcionar. Contudo, no entanto, todavia, porém, não quero ser decepcionada, e tenho a impressão de estar trajando gala para ir ao boteco da esquina, embarquei no "momento certo" faz muito, faz dias, meses, anos e nunca puxei a cordinha, porque não sei se quero saltar ou ficar nesse eterno molejo de quando se entra em buracos, passa por quebra-molas ou para em sinaleiras na madrugada. Certeza se eu vou acertar o ponto e puxar a bendita cordinha a tempo eu não tenho, do cíclico brota o novo. E no antigo-novo deposito minha sinceridade. Estava apenas procurando o e não um, motivo, ser, amor, carinho,  entorno, olho, cabelo, cheiro. Agora cá estou vestindo meu melhor sorriso para escrever essas frases que, apesar de toda punhetagem blá blá blá, pode não fazer o menor sentido a quem se destina e se destina, será? Minhas perguntas e eu, belos amantes. 

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