outubro 17, 2010

Cólera



Então ele estendeu os dedos gelados na escuridão, buscou tateando a outra mão na escuridão, e a encontrou à espera. Ambos foram bastante lúcidos para perceber, num mesmo instante fugaz, que nenhuma das duas era a mão que tinham imaginado antes de se tocar, e sim duas mãos de ossos velhos. Mas no instante seguinte já eram. (…)

Firmina Daza parou de fumar para não soltar a mão que ele guardava na sua. Estava perdida na ansiedade de compreender (…) e no entanto encontrava mais tropeços do que complacências na evocação de sua vida, demasiadas incompreensões recíprocas, brigas inúteis, rancores mal solucionados. Suspirou de repente: “É incrível como se pode ser tão feliz durante tantos anos, no meio de tanto bate-boca, tantas chateações, porra, sem saber de verdade se isso é amor ou não”. Quando acabou de desabafar, alguém tinha apagado a lua. 
(…)
- Sigamos em linha reta, reta, reta, outra vez até a Dourada. 
Fermina Daza estremeceu, porque reconheceu a antiga voz iluminada pela graça do Espírito Santo, e olhou o comandante: ele era o destino. Mas o comandante não a a viu, porque estava anonadado pelo tremendo poder de inspiração de Florentino Ariza. 
- Está dizendo isso a sério? - perguntou.
- Desde que nasci - disse Florentino Ariza - não disse uma única coisa que não fosse a sério. 
O comandante olhou Firmina Daza e viu em suas pestanas os primeiros lampejos de um orvalho de inverno. Depois olhou Florentino Ariza, seu domínio invencível, seu amor impávido, e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites. 
- E até quando acredita o senhor que podemos continuar nesse ir e vir do caralho? - perguntou.
Florentino Ariza tinha a resposta preparada havia cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites. 
- Toda vida - disse.

O amor nos tempos do cólera”

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