Há quem diga que "tudo na vida passa, só o cobrador não passa", velha piadinha que você já deve ter escutado nos tempos de colégio. Mentira. Nada passa. Fica tudo aí, em uma espécie de arquivo morto, arquivado, guardado, mas sem grande utilidade no dia-a-dia.
É linda a ilusão de que a dor vai passar, mas por que nunca falamos a ninguém que a alegria também vai passar? Não falamos, porque, simplesmente, não passa.
Brigamos com o namorado e logo um amigo diz: calma, vai passar. Perdemos o emprego injustamente, perdemos o amigo sem saber por que, terminamos relacionamentos e a frase que mais ouvimos é: calma, isso passa. Nada passa, no máximo cessa, no máximo para de doer, por um período, mas está sempre ali, guardado no seu arquivo, se necessário for é só puxar a gaveta e consultar.
São anos e anos de dores, emoções, alegrias que estão arquivadas, elas servem para montar o quebra-cabeça, a pessoa que você está se tornando.
Até o fim da sua vida todas as suas dores e alegrias vão sendo arquivadas, assim sua personalidade, a maneira de tratar o mundo, as pessoas, o trabalho, tem muito a ver com o que está ali na primeira gaveta, seção B, arquivo 5.1, 1999. Naquele ano você perdeu o emprego porque havia tido uma desilusão amorosa, estava chorosa, chocada com o fato de achar que vocês foram feitos um para o outro, passava os dias enviando e-mails, sms, telefonemas que nunca eram respondidos, e quando a resposta estava ali te feriam mais que o silêncio. Você desconcentrou-se, largou o trabalho, pediu para a tia do cafézinho checar as planilhas, ir às reuniões, regar sua plantinha. Fez um convênio com o farmácia para que os lenços de papel fossem mais baratos, já que seria necessário comprar toneladas. Você estava um caco, uma geléca. Algum tempo depois passou. Passou? Não, não passou. A dor cessou. Você começou em um novo trabalho, focada, prometeu nunca mais namorar, não iria mais apaixonar-se. Eis que surge seu lindo colega de trabalho, e voilá, uma paixão arrebatadora. Dessa vez o trabalho é prioridade, então não deixa acontecer de forma natural, tenta manipular a situação, sempre na defensiva, querendo declarar-se a qualquer momento, mas e se acontecer tudo de novo? Você acaba de puxar o tal arquivo, dá uma dor no peito, o nó na garganta caracteristico. Lê, se aborrece e simplesmente para de responder os e-mails, sms, bilhetinhos românticos do seu mais novo principe encantado. Por quê? Porque nunca passou, e tendo acesso às informações que tornaram você o que é agora será difícil deixar alguém entrar novamente no seu mundo sem receios, sem medos. Você dispensa o cara que poderia, talvez, ser realmente a pessoa certa. Não se arrepende agora, mas já arquivou na seção N, arquivo 4.0, 2002, mais tarde ele se apaixona por outra, uma amiga sua, que lhe conta o quanto ele é gentil, amoroso, honesto, trabalhador, inteligente e que foi a melhor transa dela. Opa! lá vai você puxar a pasta no arquivo, acrescentar uma nota "se arrependimento matasse", isso servirá no futuro, não tenha dúvida.
Falta mesmo é coragem dos amigos nos darem a informação correta, não passa, mas alivia. As dúvidas na hora de fazer uma escolha, a dor da perda, a dor da saudade, a dor do fracasso, a dor de não corresponder uma expectativa, parecem pequenas para quem está de fora, mas é como um bichinho dançando no nosso estômago o tempo todo. O bichinho corre de um lado para o outro relutante, ele não vai embora, vai só tirar uma soneca.
Tristezas, alegrias, dores não passam. Você não conseguiu parar de pensar no quanto o sorriso dele era lindo, o primeiro prêmio pelo reconhecimento do seu trabalho, os dias em que dançou na chuva, os abraços reconfortantes, o beijo quente em um dia frio que ela lhe deu, os olhares calorosos, o adeus de quem amou, o silêncio não consentido, a briga, o choro, o riso, o sorriso, a mão estendida e mais que depressa recolhida, tudo isso, lentamente, nos forma. Nada se perder nesse jogo, que aos poucos é montado, e que muito demora, vamos levar a vida toda para montarmos nosso quebra-cabeça pessoal e nenhuma peça será deixada de lado, as peças menos visualizadas chamamos de "isso passa". E quando você menos espera será necessário pegar uma porção de "isso passa" dentro do arquivo, porque são as peças necessárias no tabuleiro naquele instante. Vá montando, um dia, quem sabe, você conseguirá se enxergar totalmente. Nada passa, mas nem por isso serve para que deixemos de fazer algo por medo da dor.







